Blog
Na terceira edição do Back2Black, em 2011, a Estação Leopoldina deixou de ser apenas um galpão abandonado resgatado pela música: transformou-se em uma tela viva para os traços oníricos de Otávio e Gustavo Pandolfo — os irmãos que o mundo aprendeu a chamar de Os Gêmeos. Pela primeira vez, o festival recebia uma cenografia inteiramente concebida por artistas nascidos da rua, do spray, do concreto. O gesto foi maior que a estética. Inserir a linguagem do grafite na arquitetura de um festival dedicado à diáspora negra e às suas reverberações contemporâneas não era decorar: era inscrever a arte marginal no coração de uma celebração que sempre buscou confrontar hierarquias e descolonizar olhares.
As instalações, vastas e coloridas, não serviam de pano de fundo — eram atmosfera. O festival virou uma cidade paralela, onde a ancestralidade negra e a imaginação urbana vibravam sob o mesmo compasso.
O ponto nevrálgico da intervenção foi a instalação dos infláveis — os célebres balloon heads amarelos e alaranjados — que pendiam sobre o público como constelações de rostos atentos. Ao redor, trens e grandes painéis pintados expandiam o universo típico da dupla: figuras alongadas, traços inconfundíveis e uma paleta que convertia ferro e tijolo em pura ficção visual. Nas imagens da época, vê-se o público não apenas contemplando, mas circulando por dentro da obra, atravessando e sendo atravessado por ela.
Mais que espetáculo, aquela cenografia operou como gesto político. Ao levar para a Leopoldina uma estética nascida na periferia, Os Gêmeos colocaram a arte urbana lado a lado com a música negra, reafirmando o Back2Black como espaço de visibilidade e empoderamento. Sua intervenção afirmou que ocupar um espaço publicamente — com cor, forma e imaginação — é também definir uma identidade: uma pintura que nomeia, que abre caminhos de reconhecimento e que transforma o festival numa cena de pertença coletiva.
Em palavras dos próprios artistas:
“Participar do Back2Black em 2011 foi muito especial, porque tivemos muita liberdade para fazer essa direção de arte. O projeto aconteceu na antiga estação Leopoldina, no Rio de Janeiro, e nós desenvolvemos uma instalação com infláveis no teto da estação. Demorou um tempo para ser elaborado, tanto na parte de criação quanto na de desenvolvimento dos infláveis. Mas foi muito gratificante poder participar e acompanhar o resultado, estar presente durante o festival e ver esse diálogo entre os artistas que se apresentaram e a nossa obra instalada na estação. Foi uma instalação única e que até hoje temos boas lembranças e grandes memórias daqueles dias!”


