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O Back2Black sempre foi farol e vitrine — mais que um palco, um território onde a cultura negra não apenas se apresenta: se afirma. Ao trazer, em 2012, os painéis de Carybé para o coração da Estação Leopoldina, a curadoria não escolheu uma cenografia; convocou presenças. Ali, traços e cores evocavam o candomblé e a Bahia, criando um ambiente onde a ancestralidade caminhava entre os visitantes.
A Bahia, berço do candomblé e de tantas expressões afro-brasileiras, sempre viveu um paradoxo: uma vitalidade cultural exuberante convivendo com o preconceito que tentou silenciar suas tradições. Foi nesse ambiente que Carybé se formou. Observou mercados, rituais, celebrações populares — e transformou tudo em linguagem visual. No Back2Black, seus painéis reapareceram como força insubordinada: orixás, festas e símbolos emergindo como memória viva, unindo passado e presente.
O artista dizia ter escolhido o candomblé simplesmente porque gostava: “É a melhor religião… os deuses são os rios, o mar, o vento, a chuva, o arco-íris.” E completava: “Documentei com honestidade o que vi e vivi.” Essas palavras ecoaram na cenografia do festival, revelando que cada linha sua é testemunho — não de observação distante, mas de convivência e respeito.
Na Estação Leopoldina, seus painéis criaram um território sensível. O público não apenas olhava: era atravessado pela memória baiana e pela potência estética de uma tradição que, por séculos, lutou para ocupar o centro da cena. A arte de Carybé não decorou o espaço; transformou-o em manifesto.
Ao integrar essas obras, o Back2Black reafirmou sua vocação: celebrar a cultura negra, ampliar vozes e devolver centralidade ao que tantas vezes foi marginalizado. Nos orixás, nos gestos, nas cores, a obra de Carybé tornou-se estandarte — prova de que a arte é também lugar de pertencimento, afirmação e continuidade.


